Vacas são
mais perigosas
do que você
imagina

role a página para descobrir

Para que este bife chegue até o seu prato, são lançados na atmosfera cerca de 150 kg de metano, um dos principais gases de efeito estufa

Isso equivale a 12,6 toneladas de CO2, outro vilão do aquecimento global

E mais: o animal que deu origem a este suculento pedaço de carne ocupou o equivalente a um campo de futebol de área desmatada

O pecado
da carne

A dieta carnívora criou o Homo sapiens. Mas hoje, o número exagerado de bois e vacas pode tornar o planeta um verdadeiro inferno — e ameaçar a nossa existência

Texto Caroline Monteiro, Jéssica Ciorniavei,
Luiza Monteiro, Paula Gondim, Veronica Sesti
Fotografia Jorge Hynd
Video Marina Garcia
Design Renan Rosatti

Q

uando se fala em efeito estufa, é comum apontar a queima de combustíveis fósseis como a grande culpada pela elevação da temperatura do planeta. Não é para menos: só no Brasil, os automóveis e termelétricas são responsáveis por colocar na atmosfera 341,6 milhões de toneladas de gases estufa, principalmente dióxido de carbono (CO2). Não faltam iniciativas para mudar esse cenário. Passamos a usar mais a bicicleta no lugar do carro ou mesmo a andar a pé. No campo da matriz energética, alternativas como as energias eólica e solar vêm ganhando espaço. O que é ótimo.

Mas os combustíveis fósseis, infelizmente, não são os únicos vilões. O maior inimigo do clima talvez esteja no seu prato. No Brasil, o maior responsável pelas emissões de gases estufa não são os carros, os caminhões nem as chaminés da termelétricas. Vamos ver se você adivinha quem é: ela pesa cerca de 600 kg, come capim e o tipo mais conhecido é o branco com malhas pretas pelo corpo. Se o seu chute foi a vaca, acertou em cheio. Esses seres pacatos que se alimentam basicamente de grama estão entre os principais responsáveis pelo aquecimento da Terra. Estima-se que só a pecuária representa um quarto das emissões globais.

E no Brasil é bem pior. Somos donos do maior rebanho bovino comercial do mundo: 212 milhões de cabeças de gado. É mais vaca do que gente. É mais boi do que carro. A cada ano, nossos bovinos liberam 911,5 milhões de toneladas de gases estufa. Mas por que as vaquinhas causam tanto estrago? O que está sendo feito aqui e em outros países para mudar esse cenário? Qual a solução para o problema? É o que você vai ver agora.

capítulo 1


A Culpada

O

bicho que dá origem ao churrasco, ao queijo e ao brigadeiro não emite CO2, como o motor de um carro. Mas ele produz algo pior: o metano (CH4), um gás estufa que chega a ser 84 vezes mais potente que o dióxido de carbono. Um bovino chega a lançar 150 kg desse gás na atmosfera até a idade do seu abatimento, aos 3 anos de vida. Isso equivale a 12,6 toneladas de CO2, o vilão mais conhecido do aumento da temperatura da Terra. Isso é o que QUATRO carros soltam por ano. Ou seja: na prática, cada vaca produz mais gases estufa que cada carro.

Os bovinos passam cerca de 8 horas por dia ruminando capim

Motivo: vacas e bois funcionam como câmaras de fermentação gigantes. Em um de seus quatro estômagos, o rúmen, eles abrigam bactérias, fungos e protozoários que fornecem as enzimas necessárias para digerir a celulose presente no capim e transformá-la em energia e proteína. É uma relação mutualística – o boi aproveita o material celulósico e, em troca, os micro-organismos obtêm energia para se multiplicar. E o mecanismo pelo qual esse processo ocorre é justamente a fermentação.

A questão é que, durante a quebra das moléculas de celulose, é liberado gás hidrogênio (H2), que impede a digestão apropriada do material proveniente do pasto. É aí que entram as arqueas metanogênicas, um grupo de micro-organismos responsável por limpar o rúmen do H2. “Uma das principais maneiras de eliminar esse resíduo é a formação de metano”, explica Paulo Mazza, professor de Nutrição Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP e especialista em fermentação na produção animal. Basicamente, essa turma de lixeiros capta as moléculas de hidrogênio e junta com a de carbono, formando o CH4. A principal porta de saída do gás é a boca da vaca – 95% do metano sai por ali. É o arroto desse animal que ameaça o meio ambiente.

Por dentro dos Bovinos

Eles são verdadeiras (e gigantes) máquinas de converter capim em proteína. Entenda como funcionam os quatro estômagos desses animais

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Por dentro
dos Bovinos

  • Eles são verdadeiras (e gigantes) máquinas de converter capim em proteína. Entenda como funciona cada um dos quatro estômagos desses animais.

  • Rúmen

    Este é o principal órgão do sistema digestivo da vaca. É onde os micro-organismos fazem a fermentação do material ingerido, transformando a celulose em proteína de alta qualidade. Não à toa, o rúmen chega a comportar 100 kg de comida – o equivalente a duas pessoas pequenas ou uma moto de 110 cilindradas. Aliás, esse compartimento nunca se esvazia, ele permanece repleto de alimento 24 horas por dia, 365 dias por ano.

  • Retículo

    Ele trabalha junto com o rúmen. Sua principal função é direcionar aquilo que já foi digerido para os outros órgãos do sistema digestivo e o que ainda não foi esmiuçado de volta para a boca do animal, a fim de ser ruminado, ou seja, mastigado novamente.

  • Omaso

    Considerado o terceiro estômago, o omaso atua como uma válvula que controla o que sai do rúmen e o que segue adiante na digestão. Seu papel é absorver água, ácidos graxos e sais minerais do bolo alimentar e descartar o que não poderá ser aproveitado.

  • Abomaso

    Aqui é onde ocorre a produção de enzimas responsáveis por digerir as proteínas sintetizadas no processo de fermentação. Deste órgão, o conteúdo segue para o intestino, onde serão absorvidos aminoácidos e formadas as fezes.

  • Fonte: Paulo Henrique Mazza Rodrigues, professor associado de nutrição animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP e especialista em estudos de fermentação na produção animal

capítulo 2


O país da


tentação

H

á mais de um boi no Brasil para cada cidadão. São 212 milhões deles, contra 205 milhões de habitantes. Um em cada cinco bovinos do planeta está em nosso território. A proporção gado per capita por aqui é de 1,03, enquanto o índice mundial é de 0,15. Só no estado do Mato Grosso, por exemplo, são 28,5 milhões de bovinos para apenas 3,3 milhões de humanos. Isso dá 8,7 bois por pessoa. No Uruguai e na Nova Zelândia, países bem menores, mas grandes exportadores de carne, essa proporção é muito mais baixa: de 3,5 e 2,4, respectivamente.

Em termos absolutos, só a Índia possui um rebanho maior do que o nosso — são 300 milhões de cabeças para 1,36 bilhão de pessoas. Mas nesse caso a história é outra: lá, as vacas são sagradas, e não comercializadas como alimento.

Refazendo as contas

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) aponta que a agropecuária é responsável por 14,5% das emissões globais de gases de efeito estufa provocadas pelo homem. No total, o setor lança na atmosfera 7,1 bilhões de toneladas de metano, dióxido de carbono e óxido nitroso (N2O).

Mas a realidade pode ser ainda pior. Por convenção, a maior parte dos relatórios oficiais está baseada em dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) de 2007. Mas esses números já estão ultrapassados. Um novo documento da entidade, lançado em 2013, atualiza os valores do potencial de aquecimento global (GWP, na sigla em inglês), medida que calcula o quanto compostos como CH4 e N2O são capazes de reter calor em relação ao CO2. Segundo os novos cálculos, em um período de 20 anos, o metano tem 84 vezes mais potencial de desestabilizar o clima do que o dióxido de carbono, e não 72 como apontava o IPCC de 2007.

Isso quer dizer que 1 tonelada de CH4 tem o mesmo impacto na atmosfera que 84 toneladas de CO2. Para essa conversão, a unidade de medida internacionalmente aceita é o CO2 equivalente (CO2eq).

“Levar em conta o GWP
de 100 anos subestima completamente o real papel do metano no aquecimento global”
— Robert Howarth

Outro problema é de comunicação. Desde que as mudanças climáticas por emissão de gases estufa virou assunto de primeira grandeza, há 10 anos, os dados mais divulgados subestimam a nocividade real do metano. Esses dados dizem que o potencial de aquecimento global do CH4 é bem menor: equivaleria a “só”; 28 vezes o do carbono. O cálculo não está errado. A diferença é que, como o metano é relativamente volátil, seu poder como gás estufa diminui com o tempo. Bom, o intervalo de tempo que os cientistas tradicionalmente usam para divulgar o potencial de aquecimento global de um gás é de 100 anos. E para esse período o GWP do metano é de 28.

Mas, para grandes especialistas em mudanças climáticas, não tem sentido fazer projeções somente para um período tão longo. Até porque o tempo de vida do metano na atmosfera é de 12 anos. Robert Warren Howarth, professor de ecologia e biologia ambiental da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, e um dos maiores especialistas no assunto corrobora essa posição. “Dado o ritmo do aquecimento global, eu e outros cientistas consideramos que o período certo a ser considerado é o de 10 ou 20 anos. Levar em conta o de 100 anos subestima completamente o real papel do metano no aquecimento global”, defende o pesquisador em entrevista à SUPER.

O próprio IPCC, em seu Quinto Relatório de Avaliação, afirma que não há argumento científico para o uso do potencial de aquecimento global em um século em vez de 20 anos. Estamos, então diante de uma nova verdade inconveniente: a de que a carne vermelha é um agente tão perigoso para o aquecimento global quanto os combustíveis fósseis.

O problema é nosso

De acordo com os dados mais recentes, e levando em conta o GWP dos gases estufa para 20 anos, as atividades relacionadas à agropecuária representam 23% das emissões globais, e não 14,5% como calcula a FAO. No Brasil, só o metano resultante da fermentação da digestão de bovinos é responsável por 35% dos gases emitidos de um total de 2,6 bilhões de toneladas de CO2eq que soltamos na atmosfera.

Nesse novo cenário, uma vaca é pior para o meio ambiente do que um automóvel de passeio. Em média, no Brasil, um animal de corte libera 50 kg de metano por ano. Uma vaca leiteira elimina 60 kg do gás, porque gasta ainda mais energia para produzir cerca de 20 litros de leite por dia.

A frota circulante de automóveis em território nacional é de 34 milhões — seis vezes menor do que o número de bovinos. Juntos, os carros produzem por ano 96,6 milhões de toneladas de CO2 equivalente. Se considerarmos a poluição de todos os veículos (ônibus, motos e caminhões), são 253 milhões de ton CO2eq. Como no rebanho brasileiro são 189,3 milhões de cabeças de corte e 23,1 milhões de vacas de leite, o total de emissões resultante do processo digestivo do gado é de 911,5 milhões de ton CO2eq — 3,6 vezes mais que todo o sistema de transporte nacional.

Se você ainda acha pouco, aqui vai mais um dado: toda a geração de eletricidade no Brasil não representa nem 10% de toda a emissão de gases dos ruminantes. O setor energético inteiro, que inclui transportes, geração de energia elétrica e produção de combustíveis coloca na atmosfera 518 milhões de ton CO2eq. O rebanho brasileiro libera quase o dobro.

Há outras fontes importantes de emissão de CO2, como a incineração de lixo, os processos industriais e o desmatamento não relacionado à criação de vacas. De qualquer forma, ninguém ganha do gado bovino no Brasil. A pecuária é a maior poluidora.

A conta vai além. Para calcular todo o efeito da agropecuária no aquecimento global, é necessário incluir nos cálculos as emissões indiretas provenientes do desmatamento. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) calcula que, só em 2014, a destruição da floresta amazônica liberou 384 milhões de toneladas de CO2eq na atmosfera — e essa foi a menor emissão anual desde 2002. Segundo o Projeto TerraClass, também do INPE, 60% da área desmatada na Amazônia é destinada à pecuária, o que corresponde a 442 mil km2. Então o total de emissões da atividade, considerando a fermentação dos bovinos e a área que eles ocupam, é de 1,14 bilhão de toneladas de CO2eq. Quase metade de tudo o que o Brasil lança.

Pior: derrubar tantas árvores prejudica o chamado sequestro de carbono, que é a absorção pelas plantas de grandes quantidades de CO2 presentes na atmosfera. Esse processo é naturalmente realizado pelas florestas: cada hectare em desenvolvimento é capaz de absorver nada menos do que 150 a 200 toneladas de gás carbônico. Moral da história: temos 212 milhões de cabeças de gado produzindo metano a todo minuto, e a pecuária ainda atrapalha a absorção dos gases de efeito estufa.

Depois de conhecer esses dados, você deve estar pensando que a culpa do efeito estufa é do grande consumo de carne pela população brasileira. Mas não é bem assim: o mundo inteiro é carnívoro. E nós somos os maiores exportadores do produto, com mais de 20% das vendas globais, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC). Os dados impressionam: em 2015, foi exportado 1,39 milhão de toneladas de carne bovina, com destino principalmente para China, União Europeia e Egito. Com tudo isso, daria para fazer 7 bilhões de hambúrgueres por ano, um para cada pessoa na Terra. Hambúrgueres de 200 gramas, diga-se.

Delivery de esfeito estufa

O problema não se limita ao nosso território. Por aqui, a maior parte do rebanho vive em pastos e se alimenta de capim, no que chamamos de pecuária extensiva. Lá fora, contudo, o gado é confinado e come ração. Mas nós temos uma participação nisso. Estima-se que 85% da produção global de soja vira material para alimentar bovinos. E esse grão é o principal produto agrícola exportado pelo Brasil. Para ter ideia, só em 2015, vendemos para o mundo 71 milhões de toneladas da commodity, o que trouxe 28 bilhões de dólares para a nossa economia. Ou seja: de certa forma, estamos contribuindo para que mais vacas, além das nossas, liberem milhões de toneladas de metano na atmosfera.

capítulo 3


Filhos


da carne

P

Quem é quem
no mundo sem carne?

Em geral, quando uma pessoa se declara “vegetariana” ela quer dizer que não come carne vermelha ou branca. Mas existem aqueles que, seja por questões morais ou religiosas, têm uma alimentação ainda mais restrita.

  • Ovolactovegetariano

    É o tipo mais comum. Uma pessoa “ovolacto” não consome carne de nenhuma procedência – vaca, frango, peixe ou frutos do mar –, mas continua consumindo produtos de origem animal, como ovos e laticínios.

  • Lactovegetariano

    Muito presente na cultura indiana, a dieta exclui carnes e ovos (principalmente pelo viés religioso), mas leite e derivados estão liberados.

  • Vegetariano estrito

    Todos os alimentos e ingredientes de origem animal estão fora da dieta: carnes de qualquer origem, ovos, laticínios e também suspeitos menos óbvios, como mel, gelatina e até alguns tipos de corantes. O carmim de cochonilha é um deles. Muito utilizado para dar a cor vermelha a diversos alimentos, é obtido de um inseto.

  • Vegano

    Mais do que uma dieta, o veganismo é um verdadeiro estilo de vida. Esse grupo não se alimenta nem consome nenhum tipo de item de origem animal, motivado pelo repúdio a qualquer forma de exploração de bichos. Além disso, o vegano também passa longe de roupas de couro, seda, lã e produtos que são testados em animais.

  • fechar
Saiba mais

esou na consciência ter comido aquele bifão malpassado no almoço? Pois é. Se o problema está na quantidade de cabeças de gado que existem no Brasil – e que são criadas para sustentar nossos hábitos carnívoros – uma solução óbvia é parar de comer carne vermelha e dar preferência a animais não-ruminantes, que produzam menos gases nocivos – o que felizmente é o caso do porco, do frango e do peixe, as outras três maiores fontes de proteína animal. Mesmo assim, a própria criação de bichos para a alimentação é um problema. Seja pelo lado humantário, seja pelo sanitário — qualquer tipo de criação intensiva é altamente poluente. No caso dos peixes, embora a pesca marítima não seja algo que possa ser chamado de “poluente”, ela é insustentável: estamos acabando com os estoques marítmos.

E parar de comer qualquer tipo de carne? Muita gente defende que uma diminuição parcial na ingestão de proteína animal já faria uma grande diferença. De acordo com o Instituto Real de Assuntos Internacionais, do Reino Unido, a adoção de uma dieta com níveis moderados de carne poderia contribuir com um quarto da meta global de redução na emissão de gases do efeito estufa até 2050. Pensando nisso, foram criadas iniciativas como o Meatless Monday, ou a Segunda-Feira Sem Carne. A ideia do movimento, que está presente em mais de trinta países, é que cortar o alimento pelo menos um dia na semana já seria uma forma de fazer algo pelo planeta e pela própria saúde. Porém, o que esses “níveis moderados” querem dizer na prática?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a porção ideal de carne vermelha seria de 500 gramas por semana. Isso daria cerca de 70 gramas por dia. Seja sincero: quando foi a última vez que você comeu um bifinho tão pequeno no almoço? Para que uma redução parcial no consumo de carne seja de fato significativa para o meio ambiente, teríamos que trabalhar com mais do que apenas um dia de abstinência. Eliminar carne vermelha e outros produtos de origem animal da dieta é possível: segundo dados de 2012 do IBOPE, mais de 15 milhões de brasileiros se dizem vegetarianos, isto é, adotam uma dieta baseada na ingestão de alimentos de origem vegetal.

Há também um componente econômico muito atraente para quem deseja investir na tendência da vida sem carne. O mercado para refeições livres de proteínas animais movimentará mais de 2 bilhões de dólares em 2016 e tende a aumentar nos próximos anos. Só a venda de tofu, por exemplo, vai gerar mais de 500 milhões de dólares, e produtos análogos à carne estão ganhando cada vez mais espaço. No ano passado, foi inaugurado o primeiro “açougue vegano” da América Latina, em Curitiba. Lá são vendidas apenas carnes de origem vegetal, como o seitan, um bife feito de proteína processada de trigo que usa corante de beterraba para dar aquela corzinha.

Carne zero

Por que o vegetarianismo
pode ser bom — para você
e para o planeta

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Parece a solução perfeita, mas não é tão simples assim. A adoção generalizada do vegetarianismo enfrenta um problema quase impossível de ser contornado: a alimentação humana é muito mais complexa. Normalmente, ponderamos o que é saudável, o que agrada nosso paladar e o que é economicamente acessível. Para completar, a alimentação é muito mais do que mera exigência biológica: é um ato social, o reflexo de uma cultura, um estilo de vida e uma enorme fonte de prazer.

Carnívoros desde os primórdios

Mas, de onde surgiu tanta vaca? Ninguém parece saber ao certo quando os bois entraram na vida do homem. Desenhos primitivos em paredes de cavernas milenares nos mostram que já na pré-história, há cerca de trinta mil anos, o homem praticava a caça de alguma espécie bovina. Portanto, faz muito, mas muito tempo que comemos carne de vaca. Quanto à sua criação, acredita-se que o bicho tenha sido um dos primeiros animais domesticados. Na Grécia Clássica, relatos apontam que os bois eram utilizados como moeda, além de inspirarem lendas como a do Minotauro. Até os egípcios parecem ter criado gado, 3.500 anos antes de Cristo!

Nossa história com a criação de bovinos e a dieta carnívora vai ainda mais longe. O fato de termos adicionado proteína animal à nossa alimentação mudou completamente o rumo da evolução humana. Desculpe, vegetarianos, mas o Homo sapiens seria completamente diferente se seus ancestrais não tivessem a carne em seu cardápio.

Um novo crânio

Os antigos hominídeos passavam horas e horas por dia apenas mastigando, comendo e digerindo. Atualmente a ideia não parece tão ruim para os gulosos de plantão, mas, naqueles tempos, era tudo cru — folhas, frutas, vegetais e até a carne. Isso mesmo, podemos dizer que ruminávamos boa parte do dia, como uma vaca.

Cuca de carne

Descubra como a inclusão da proteína animal na dieta do homem modificou a estrutura do crânio e desenvolveu o cérebro

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Cuca de
carne

  • Mandíbula e dentes

    Ao aprender a cortar e cozinhar seus alimentos, nossos ancestrais passaram a usar o tempo que gastavam mastigando para se dedicar a outras atividades, desenvolvendo novas capacidades sociais e intelectuais. Com o alimento mais macio e a menor necessidade de mastigação, nossos músculos e ossos da mandíbula se tornaram cada vez mais fracos e finos, ao memo tempo que nosso dentes diminuiram de tamanho.

  • Cérebro

    Com carne em nossas dietas, obtivemos um maior número de calorias e energia, mesmo comendo menos. Logo, começamos a transformar esse “excesso” de energia em novos neurônios, desenvolvendo e contribuindo para o crescimento de nossos cérebros.

O boi na barriga

Quando passamos a ingerir carne, desenvolvemos um sistema digestivo onívoro, capaz de digerir a proteína animal com muita eficiência em períodos consideravelmente curtos. Também adquirimos maior capacidade de processar colesterol — o que não significa que dá para ter uma vida longa e saudável comendo só fast-food. Quer dizer, apenas que, se alimentássemos um gorila e um humano ao longo de toda sua vida com refeições cheias de gordura, o homem viveria em média 50 anos, enquanto o primata apenas 20.

Carne fértil

Comer animais ajudou até a nossa reprodução. A energia e a proteína existentes na carne permitiram uma gestação mais curta e com menos complicações para mãe e filho, que passaram a ter mais fontes de nutrientes para se desenvolverem durante a gravidez. Isso também permitiu que a mulher pudesse engravidar mais vezes ao longo de sua vida.

No país da picanha

Mesmo depois dessa evolução biológica, a carne continuou mudando a vida do ser humano - especialmente do brasileiro. Aqui, o bicho está presente desde meados do século XVI e impulsionou grandes impactos econômicos e sociais. Pois é, o boi influencia e influenciou muito mais na sua vida do que você imagina. Além da jaqueta de couro e do querido churrascão, o gado teve um papel crucial na sua história e cultura.

Na economia
não é bem assim

Em 2015, a exportação de carne bovina pelo Brasil movimentou 6 bilhões de dólares. É o segundo produto mais exportado do país. Parece muito, mas não é. A venda do alimento para o exterior representa apenas 3% do nosso PIB. Trocando em miúdos: se os gringos parassem de comer vacas verde e amarelas, nossos cofres não seriam afetados.

Primeiramente, a vaca apareceu por aqui para atuar como força de trabalho nos grandes engenhos de açúcar do Nordeste e contribuir para a alimentação da população local. Com o tempo, a criação passou a se dar fora da zona canavieira, explorando e ocupando novas áreas. Dessa forma, ela foi essencial para ocupação do sertão nordestino e, depois, do Centro-Sul do país.

Apareceu assim o vaqueiro. A profissão era uma das poucas oportunidades de trabalho pago nos latifúndios nordestinos e dava uma chance de prosperidade aos homens livres da região. Com essa nova função surgiu a cultura sertaneja, que mais tarde inspirou aquela música grude que você ouve nas rádios até hoje.

capítulo 4


Promessas


de salvação

M

as o que é possível ser feito hoje para diminuir a emissão de gases estufa pela pecuária? Melhorias podem ocorrer já no pasto, quando as vacas ainda estão vivinhas e arrotando por aí. Os estudos mais promissores visam a melhora da qualidade do capim que alimenta o rebanho. Quanto melhor o capim, melhor a digestão. E quanto melhor a digestão, menos energia é gasta na liberação de metano.

Uma dieta mais balanceada significa também que os animais crescem mais rápido. Isso permite que eles sejam abatidos mais cedo, o que encurta o ciclo de produção de CH4. Existe ainda outro benefício. “Manejar bem os pastos contribui para o sequestro do carbono atmosférico”, comenta João Demarchi, do Instituto de Zootecnia de São Paulo. Assim, o aumento da produtividade no campo serve como uma espécie de neutralização de gases de efeito estufa: as vacas soltam metano, mas o pasto em que elas vivem tira carbono do ar pelo processo de fotossíntese.

Outra alternativa que tem deixado especialistas animados é o melhoramento genético dos rebanhos. Isso é feito a partir do cruzamento de espécimes que, independentemente da dieta ou das condições de criação, produzem menor quantidade de metano. A ideia é gerar filhotes que sejam mais eficientes e poluam menos. Para Sérgio Raposo de Medeiros, pesquisador da Embrapa, esse é um campo com imensas possibilidades no Brasil, já que a raça predominante em nossas fazendas, a nelore, tem grande variabilidade genética.

Vai uma baratinha aí?

A ideia de comer um prato de larvas, com uma porção de besouros fritinhos do lado, te deixa horrorizado? Saiba que essa é uma das soluções para a fome mundial, segundo a FAO. A entomofagia – inclusão de insetos na alimentação – já é uma prática presente em cerca de 80% dos países do mundo, incluindo o Brasil. No entanto, principalmente no Ocidente, esses bichinhos ainda são vistos apenas como sujos e provedores de doenças. Claro, não estamos falando que você pode pegar baratas na rua e comer – essas são realmente nojentas. Mas existem mais de 1.700 espécies de insetos comestíveis na natureza, entre larvas, grilos e besouros. Eles têm altíssimo valor proteico e sua criação é extremamente eficiente.

Grilos por quilo

Parece nojento?
Pois saiba que insetos são
tão nutritivos quanto um bife

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uma ração balanceada para grilos consiste de grãos e suplementos essenciais, como ômega 3. Algumas fazendas também alimentam seus bichinhos com frutas e outras comidas especiais antes logo antes do abate, para dar ao grilo um sabor diferenciado

É fácil criá-los e comê-los: insetos são o maior fast food do mundo animal. Em partes da África Central, larvas de escaravelho-vermelho, criadas em caixas de plástico com madeira, são uma das principais armas contra a desnutrição. Ao mesmo tempo, o cultivo de insetos para alimentação humana já movimenta mais de 20 milhões de dólares nos Estados Unidos e as projeções calculam que, em cinco anos, essa indústria será 18 vezes maior.

É fácil criá-los e comê-los: insetos são o maior fast food do mundo animal. Em partes da África Central, larvas de escaravelho-vermelho, criadas em caixas de plástico com madeira, são uma das principais armas contra a desnutrição. Ao mesmo tempo, o cultivo de insetos para alimentação humana já movimenta mais de 20 milhões de dólares nos Estados Unidos e as projeções calculam que, em cinco anos, essa indústria será 18 vezes maior.

Mesmo assim, tem muita gente que ainda torce o nariz para a ideia. Por isso, muitos produtores apostam na estratégia do disfarce. A solução mais comum é transformá-los em barrinhas proteicas ou farinha, que pode ser incorporada em praticamente qualquer receita.

Carne sem carne

Em 2013, um grupo de cientistas holandeses apresentou ao mundo o primeiro hambúrguer produzido in vitro. Células-tronco retiradas de um boi deram origem a fitas de proteína, formando um bolo de tecido muscular. Por enquanto, o processo ainda é extremamente caro. Esse hambúrguer cultivado em laboratório custou mais de 250 mil dólares – e não é lá muito gostoso.

iBurguer

No futuro, seu bife
pode ser tão tecnológico
quanto seu smartphone

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Falta entender como criar células de gordura e sanguíneas, essenciais para o sabor da carne. Além disso, especialistas acreditam que uma versão comercial demoraria de 20 a 30 anos para chegar à sua mesa. E mesmo para produzir carne in vitro é preciso retirar células-tronco de um boi. Então, como será possível criar carne sem animal?

A Impossible Foods, criada na Califórnia, utiliza moléculas e nutrientes encontrados em plantas para produzir hambúrgueres. Segundo a empresa, o sabor característico da carne existe graças a altas concentrações de hemo, um grupo de proteínas encontradas em qualquer material orgânico. Assim, o trabalho da Impossible Foods foi encontrar os melhores fornecedores vegetais de hemo – uma lista que inclui coco e melão, por exemplo. A companhia já recebeu mais de 100 milhões de dólares de investimento e pretende colocar seu produto nas lojas ainda em 2016. O maior problema, no entanto, será o preço: 20 dólares por unidade, enquanto um hambúrguer comum custa por volta de 2 dólares.

E criar carne do zero? Sintetizadores de comida, como os vistos em filmes de ficção científica, ainda vão demorar muitas décadas para aparecer na cozinha de casa. Mas há quem acredite que essa realidade está mais próxima. Em 2015, estudantes alemães apresentaram a Cultivator, um protótipo de impressora 3D que seria capaz de produzir carne sem a necessidade de um animal, o que reduziria em até 85% as emissões de gases de efeito estufa do setor pecuário. O produto final não seria um pedaço de bife, mas sim uma espécie de “placa nutritiva”, cuja textura e consistência poderiam ser personalizadas pelo consumidor.

Hoje essas soluções parecem estar muito distantes da realidade — e, de fato, estão. Mas isso prova que tem muita gente trabalhando para mudar esse cenário. Talvez, no futuro, fazendas de gado sejam assunto para livros de história, e a gente considere a criação de animais para alimentação uma ideia muito maluca. De qualquer forma, o planeta agradece.

Agradecimentos:
Z Carniceria
Av. Brg. Faria Lima, 724 - Pinheiros, São Paulo - SP
Breshow
Av. Eusébio Matoso, 191 - Pinheiros, São Paulo - SP
Objetos de cena:
Camidado - www.camicado.com.br
Spicy - www.spicy.com.br
Produção geral:
Vitor Thomaz
Produção cenográfica:
Frida Abrahão, Sara Abrahão, Nani Rodrigues
Produção culinária:
Nani Rodrigues
Direção de vídeo:
Doberman Estúdio